Vida ativa e saudável

Categoria: Blog, Para Clínicas, Para Hospitais, Para Médicos

A prática regular de atividade física precisa ser protagonista em nossas vidas. Pesquisas recentes e o senso comum corroboram pareceres há décadas difundidos acerca de sua relevância. A evolução dos métodos de investigação científica e o aumento exponencial do número de modalidades de exercícios produziram novas conclusões sobre o tema, mas ratificam a inquestionável influência positiva da vida ativa na saúde e no bem-estar. Periodicamente, a Organização Mundial da Saúde publica um documento contendo diretrizes para atividade física e comportamento sedentário. No comunicado que sucedeu à publicação mais recente, o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom, proferiu a seguinte afirmação: “ser fisicamente ativo pode adicionar anos à vida e vida aos anos; devemos todos nos mover, com segurança e criatividade”. No texto desta semana, a RMS discute a atividade física regular e assistida, seus benefícios e efeitos positivos também para a saúde mental.

O sedentarismo ameaça a saúde mundial

A Organização Mundial da Saúde estima que o sedentarismo expõe 25% de toda a população do planeta a risco elevado de desenvolver as doenças mais letais e incapacitantes. Este indicador baseia-se em estudo recente que avaliou, dentre outros aspectos, a quantidade de tempo dedicada às atividades físicas. A análise indicou que mais de 45% da população brasileira não se exercita o suficiente, considerando os parâmetros de duração e intensidade previstos pela OMS. No cenário global, as principais causas de mortes enquadram-se no grupo das doenças não infecciosas, e o sedentarismo é fator de risco para quase todas estas enfermidades. Ainda segundo a OMS, 5 milhões de mortes poderiam ser evitadas anualmente, caso a população mundial se tornasse mais ativa. A entidade estima que os custos com assistência médica destinada ao tratamento dos efeitos do sedentarismo alcancem a cifra de U$ 54 bilhões anuais. No Brasil, estudo realizado pela UFF Universidade Federal Fluminense concluiu que tais custos perfazem R$ 300 milhões ao ano, considerando apenas os valores empregados no Sistema Único de Saúde. As doenças cardiovasculares, muito associadas ao estilo de vida e comportamento sedentário, são responsáveis por 30% de todos os óbitos registrados anualmente no Brasil.

Tempo e intensidade ideais

Na mais recente atualização das diretrizes para atividade física e comportamento sedentário, a OMS propõe como ideal 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada ou 75 a 150 minutos em alta intensidade. Recomenda que adultos saudáveis adicionem à rotina de atividades físicas séries de exercícios para fortalecimento muscular, moderados a intensos, no mínimo 2 dias por semana. O documento da OMS diferencia atividade física de exercício físico, sendo a primeira uma referência a qualquer movimentação que produza estímulo aos músculos e gasto calórico, enquanto exercícios são práticas específicas estruturadas para proporcionar resultados estéticos ou melhoria de condicionamento ou ambos. Caminhar e subir escadas são atividades físicas, musculação é um exercício físico. Todos os exercícios físicos são também atividades físicas. As diretrizes da OMS reforçam a ideia de que “qualquer movimento é melhor que nenhum movimento”. Tratam ainda dos efeitos negativos dos longos períodos diários de inatividade, mesmo para quem pratica atividades físicas com regularidade. A ideia portanto é mover-se sempre, evitando permanecer inativo por muito tempo (horas sentado em frente à TV ou utilizando smartphone ou PC, por exemplo).

Um estudo conduzido pela Escola de Medicina da Universidade de Boston obteve resultados que corroboram as diretrizes publicadas pela OMS. Embora direcionado à melhoria do condicionamento físico e não propriamente aos benefícios da vida ativa para a saúde, o trabalho converge com os parâmetros da OMS quanto à eliminação do sedentarismo: 1h15min de exercícios intensos ou 2h30min de práticas moderadas todas as semanas são suficientes para promover evolução no condicionamento. A pesquisa também abordou a relação entre boa forma e intensidade da atividade física, concluindo que exercícios intensos são três vezes mais eficientes que caminhada e outras práticas consideradas leves. Isso não significa que atividades de baixa intensidade são desprezíveis. Os pesquisadores afirmaram que a meta de executar 10 mil passos diários, por exemplo, contribui consideravelmente para a melhoria do condicionamento. Com relação à inatividade, conclusões semelhantes às diretrizes da OMS: mover-se constantemente é muito benéfico e longos períodos sem atividade são prejudiciais. Contudo, relativamente à boa forma, exercícios regulares intensos compensam os períodos diários de inatividade.

Amplos benefícios 

Profissionais de saúde e pesquisadores são unânimes em afirmar que a prática regular de atividades físicas é recurso indispensável à promoção de vida saudável e envelhecimento ativo:

– a prática regular de atividades físicas auxilia na prevenção de doenças cardiovasculares e contribui para atenuar fatores de risco como a elevação da pressão arterial e dos níveis de colesterol LDL e triglicerideos;

– exercícios físicos auxiliam no controle da glicemia e aumentam a sensibilidade à insulina, portanto, previnem ou amenizam quadros de diabetes;

– atividades físicas praticadas conforme orientação médica atenuam os efeitos das doenças respiratórias crônicas;

– pesquisa da Universidade de Bath, Inglaterra, concluiu que exercícios físicos em qualquer idade contribuem para a atividade das células T do sistema imunológico;

– dopamina e endorfina resultantes da prática de exercícios físicos podem regular os níveis de cortisol, beneficiando o sistema imunológico e a produção de testosterona;

– exercício físico estimula a liberação de neurotrofina, proteína essencial à sobrevivência dos neurônios; atividades físicas com orientação médica atenuam efeitos do Alzheimer, Parkinson e Esclerose Múltipla;

– estudos realizados por entidades médicas norte americanas lideradas pelo Colégio Americano de Medicina do Esporte concluíram que a prática regular de atividades físicas auxilia na prevenção de diversos tipos de câncer, por atenuar fatores de risco como desequilíbrio na produção de insulina, obesidade e processos inflamatórios; além disso, os exercícios com orientação médica podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes com câncer;

– exercícios regulares previnem a osteoporose, doença incapacitante que afeta majoritariamente a população idosa.

Importante para a saúde mental 

Vida ativa repercute não só na condição física, como também na condição mental.  Um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard sugere que caminhadas diárias reduzem em quase 30% os riscos de desenvolver depressão. O equilíbrio nos níveis de cortisol promovido pelas atividades físicas é benéfico para pessoas com quadros de estresse, ansiedade e depressão. Os exercícios podem proporcionar melhoria da qualidade sono, elemento essencial à saúde mental. Cortisol elevado e privação de sono sobrecarregam corpo e mente, produzindo um estado de tensão extremamente nocivo. Os efeitos da atividade física podem contribuir para amenizar o quadro e restabelecer a normalidade. A elevação dos níveis no corpo de dopamina, endorfina e serotonina estimulada pelas atividades físicas reduz o estresse, melhora o humor, promove relaxamento e sensações de bem-estar e saciedade. No período de tempo dedicado ao exercício físico, a atenção voltada à execução e as interações estabelecidas afastam pensamentos negativos que atormentam nos instantes de inatividade. Atividades físicas podem melhorar o autoconceito e a autoestima, reduzir as tensões, proporcionar relaxamento e bem-estar, ajudar a socializar, amenizar os rigores da rotina.

Acessível a todos

A prática de atividades físicas está ao alcance de todos. Importante submeter-se a uma avaliação médica antes de começar, independentemente da idade. Quem viveu anos de sedentarismo ou dispõe de diagnóstico positivo para algum quadro especial de saúde não deve iniciar práticas sem orientação médica, notadamente as atividades mais intensas. Pessoas que mantêm consultas com frequência definida podem orientar-se com o médico de acompanhamento regular. Quem estiver a frequentar serviço de fisioterapia deve orientar-se também com o profissional que conduz o trabalho. Para as crianças, os pais ou responsáveis devem consultar o pediatra de acompanhamento regular. Importante ter em mente que esportes de alto desempenho impõem algumas condições especiais. Crianças e jovens devem estar dispostos a aceitar tais condições, não podem ser forçados sob qualquer pretexto. Fundamental que se sintam confortáveis com a prática, orientadores e ambiente. A atividade física não pode se tornar um fardo ou fonte de dissabores. Esta última orientação serve a todas as idades e perfis, pois a atividade física deve gerar benefícios à saúde e proporcionar bem-estar e vitalidade, não se converter em mais uma origem de tensões. Última sugestão da RMS: orientação de profissional de educação física é sempre bem-vinda. Exercícios, especialmente os mais intensos, por vezes trazem um efeito colateral: lesões. O apoio de um profissional de educação física evita que o praticante venha a arrepender-se depois. Em suma, com supervisão adequada, todos podemos adotar um estilo de vida ativo e saudável. Caminhadas, corridas, esportes, danças, modalidades de academias, todos são válidos. Parafraseando o Senhor Tedros Adhanom, diretor geral da OMS: “podemos todos nos mover, com segurança e criatividade”.

Compartilhe esse post