A saúde mental de médicas e médicos tem sido tema de frequentes publicações direcionadas a este grupo de profissionais, mas nenhum dos textos trata a condição como favorável. A RMS divulgou recentemente resultado de uma consulta promovida pela Afya Educacional que indicava presença de sintomas da Síndrome de Burnout em mais de 70% dos trabalhadores da saúde. Conteúdos publicados por entidades do setor apresentam indicadores elevados de ansiedade, depressão, dependência química e mesmo histórico de lesões autoinfligidas e suicídio. Condições de trabalho adversas, situações extremas de tensão, jornadas exaustivas, privação de sono, ambiente laboral hostil, insatisfação com os rumos da carreira afetam o bem-estar dos profissionais que cuidam da saúde do brasileiro.
Raio X
Um levantamento promovido em 2022 pelo Research Center, instituto vinculado à Afya Educacional, produziu resultados reveladores sobre a saúde mental de médicas e médicos brasileiros. Sintomas de depressão foram detectados em 69% dos profissionais consultados. Quanto a transtorno de ansiedade, apenas 20% dos entrevistados pareciam estar livres dos sinais da doença. Síndrome de Burnout ultrapassou 70% na maioria das carreiras de saúde consultadas, sendo o excesso de horas de trabalho a principal causa alegada. Sobre o consumo recorrente de álcool e tabaco, quase 50% dos médicos e médicas que responderam ao questionário confirmaram tal comportamento.
A importância do ambiente de trabalho
Condições laborais adversas e jornadas de trabalho extenuantes contribuem sobremaneira para o esgotamento e outras complicações de ordem mental, em alguns casos agravadas pelo estilo de vida do profissional. Metade das médicas e médicos consultados pelo Research Center indicaram que as instituições onde trabalham ou para as quais prestam serviços não estabelecem limites de carga horária contínua. Na percepção de 75% dos entrevistados, as entidades empregadoras não oferecem recursos para diagnóstico e suporte aos profissionais em sofrimento emocional. 47% afirmaram não poder contar com os próprios colegas de trabalho, pouco dispostos a criar uma rede de apoio e solidariedade. 72% responderam que o estresse elevado e os impactos emocionais do esgotamento profissional têm afetado os relacionamentos fora do ambiente laboral. Como agravantes do cenário: 65% não conseguem o mínimo de 7 horas diárias de sono regular; 70% não praticam atividades físicas regularmente; 70% não adotam qualquer prática de manejo do estresse.
Os cuidados para quem cuida de todos
Imprescindível adotar medidas para preservação da saúde e proteção contra o esgotamento emocional, de forma a assegurar qualidade de vida e evitar o comprometimento do desempenho profissional. Programar-se de maneira que possa ter tempo para atividades prazerosas, mesmo que sejam de curta duração, é um excelente começo. Intervalos durante a jornada, pequenos que sejam, são de grande valia, e terão efeitos potencializados se forem investidos em condutas que permitam desconexão com o trabalho. Alguns minutos de alongamentos, por exemplo, podem ser bastante eficazes. Cuidar da qualidade do sono é essencial. Transtornos de ordem emocional estão intimamente vinculados à privação do sono, normalmente de forma bidirecional: repouso ruim agrava a doença e a doença agrava o repouso ruim. Atividades físicas regulares são um recurso valioso. Moderadas ou intensas, mesmo com duração curta, funcionam desde que haja regularidade, boa distribuição do tempo total ao longo da semana. Férias e períodos dedicados ao lazer não podem faltar. Por fim, mas não menos importante, pedir ajuda, permitindo que as pessoas entendem que há um problema. No local de trabalho, pequenos ajustes com o apoio de colegas e gestores, se possível. Fora do contexto laboral, família, amigos e profissionais especializados contribuem para evitar que a desesperança se apodere dos pensamentos e crie um abismo emocional.
