Em 27 de setembro é celebrado o Dia Nacional de Doação de Órgãos. A data foi incluída no calendário oficial brasileiro pela Lei 11.584, de 28 de novembro de 2007. O artigo 1° da norma prevê a promoção de campanhas de estímulo à doação, anualmente, nas semanas que antecederem o dia da celebração. Esta orientação reflete o desejo de setores da sociedade e profissionais de saúde quanto à conscientização das famílias acerca da importância do ato. Dezenas de milhares de brasileiros que sofrem de doenças crônicas podem ser salvos ou voltar a viver plenamente por resultado de um simples, porém grandioso gesto: a autorização de coleta de órgãos e tecidos.
Breve história dos transplantes
O primeiro transplante de órgãos bem-sucedido foi realizado em 1954, nos Estados, por equipe comandada pelo médico Joseph Murray. Na ocasião, um homem doou voluntariamente um dos rins para o irmão gêmeo. Cirurgias em que doador e receptor eram parentes próximos continuaram a ser realizadas, já que o risco de rejeição era baixo. A rejeição representou uma séria limitação aos transplantes de órgãos, tendo em vista que o sistema imunológico atacava o órgão transplantado como se este representasse risco à saúde do receptor. Nos anos 1960, algum avanço nos métodos de controle da rejeição permitiu cirurgias com pessoas sem grau de parentesco algum.
Em 1967, outro grande marco na história dos transplantes foi a cirurgia realizada na África do Sul, sob o comando do médico Christiaan Barnard: o primeiro transplante de coração, tendo o receptor sobrevivido a uma intervenção cirúrgica de aproximadamente 5 horas. Durante 18 dias, Barnard e sua equipe lutaram contra o processo de rejeição, mas o paciente veio a falecer, não por complicações diretas da cirurgia, mas vítima de uma infecção. Um mês depois, Barnard e equipe voltaram a atuar em um novo transplante de coração, esse sim bem-sucedido.
No Brasil, o primeiro transplante também foi renal e aconteceu no ano de 1964. Em 1968, o primeiro transplante de coração foi realizado sob o comando do cirurgião Euryclides Zerbini, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Assim como aconteceu na Africa do Sul, o receptor faleceu após alguns dias de luta contra a rejeição ao órgão transplantado. A equipe do Dr. Zerbini realizou novo procedimento 4 meses depois, tendo o paciente sobrevivido pouco mais de 1 ano. A evolução nas pesquisas com imunossupressores tornou os transplantes uma cirurgia quase rotineira e com bons índices de eficácia, haja vista o controle sobre os processos de rejeição. Atualmente, a taxa de sucesso dos transplantes no Brasil é superior a 80%. Para alguns órgãos e tecidos específicos, a eficácia é superior a 90%.
Maneiras de realizar a doação
Há transplantes que podem ser realizados com órgãos e tecidos de doadores vivos, sem prejuízos à saúde destes, mas alguns procedimentos, como os destinados a coração ou válvulas cardíacas, por exemplo, apenas são possíveis quando é diagnosticada a morte encefálica do doador. Esta acontece quando cérebro e tronco cerebral sofrem parada irreversível, acarretando a falência dos demais órgãos e consequente óbito. Nestes casos, a doação apenas poderá ser concretizada mediante autorização da família (de acordo com a Lei 10.211 do ano de 2001). A legislação brasileira prevê os graus de parentesco com poderes para tal decisão. Para os transplantes com doador em vida, a depender do tecido transplantado, há instituições responsáveis pelo cadastramento de doadores e que gerenciam todo o processo. Basta estar disposto a ajudar, procurar um dos centros oficiais de recepção de voluntários e ter o cuidado de manter os meios de contato (especialmente e-mail e telefone) sempre atualizados. Essas instituições ficarão responsáveis por comunicar e orientar o doador, caso um receptor compatível seja encontrado. Vale lembrar que a doação a parente é sempre possível e o processo é simples, desde que haja compatibilidade. No caso de órgãos que exigem procedimentos mais complexos, mesmo para doador vivo, transplante entre não familiares exige autorização judicial, mas nada complicado a ponto de inviabilizar a doação.
Deixar claro aos parentes o desejo de doar órgãos
Pesquisas realizadas em dezenas de países, incluindo o Brasil, revelaram que o principal motivo para a recusa das famílias em permitir a doação dos órgãos de parentes falecidos é a insegurança acerca da morte encefálica. Outra razão é a dúvida com relação ao destino dos órgãos doados e se haverá o favorecimento de receptores específicos. A resposta é não, não haverá favorecimentos. Órgãos doados vão exclusivamente para pacientes cadastrados no Sistema Nacional de Transplantes e que aguardam em lista única, com prioridades estabelecidas segundo rigorosos critérios médicos. Ninguém receberá um coração por ser amigo de alguém importante, mas por estar na primeira posição de uma fila, onde aguarda há meses ou anos a oportunidade de cura pelo transplante. Quanto à morte encefálica, o diagnóstico apenas ocorre dentro de uma Emergência ou UTI, após o cumprimento de protocolos nacionalmente padronizados por resolução do Conselho Federal de Medicina. Dois médicos especialistas diferentes serão responsáveis pelo parecer, obtido a partir de exames clínicos e de imagem. Somente após comprovada a total inatividade do cérebro e o diagnóstico ser oficializado é que a família será consultada acerca da possibilidade de doação. Sem autorização de familiares, não haverá transplante, não importa se o doador deixou declarada sua intenção em qualquer documento.
Quem deseja ser doador precisa dialogar com a família. Deixar clara a intenção, pedir aos parentes que respeitem o desejo e realizem esse ato de amor ao próximo. Para concluir, a RMS divulga um dado que motiva a pensar sobre compromissos com a doação de órgãos e tecidos: 50 mil brasileiros encontram-se na lista de espera por um transplante. São pessoas que tiveram as vidas convertidas em expectativas e esperança de oportunidade única para restabelecer a saúde.
