14 de junho é o Dia Mundial do Doador de Sangue, data criada por iniciativa da OMS, no ano de 2014, para celebrar o nascimento de Karl Landsteiner, pesquisador austríaco que descobriu o fator Rh e realizou estudos das diferenças entre os tipos sanguíneos, tornando possível a realização de transfusões que não comprometessem a saúde dos receptores. A celebração visa a homenagear os voluntários que através da ação solidária da doação de sangue viabilizam a execução segura de milhões de procedimentos médicos todos os anos. A data objetiva também promover divulgação de conteúdo voltado a sensibilizar populações. Amenizados os efeitos da pandemia sobre o sistema de saúde, um grande número de cirurgias e tratamentos temporariamente suspensos acabaram por ser retomados, ampliando a demanda por estoques de sangue. A crise do Covid-19 produziu também diminuição no volume de doações, agravando o cenário. Os componentes do sangue têm aproveitamento em diferentes procedimentos, de maneira que um único doador pode beneficiar mais de uma pessoa. Doação de sangue é seguro, não gera prejuízo ao doador e ajuda a preservar a saúde das pessoas beneficiadas. Doar sangue é um gesto de solidariedade e de promoção da vida.
Como o sangue doado é utilizado
Na doação, aproximadamente 450 ml são coletados do doador, 10% do volume total de sangue de um adulto. Esta pequena quantidade tem potencialmente diferentes aplicações, podendo beneficiar mais de um receptor e salvar mais de uma vida:
– a transfusão maciça, ou seja, o conteúdo integral da doação, é aplicável em situações que produzem hemorragias intensas, com risco de morte por choque hipovolêmico, como os grandes traumas, cirurgias e sangramentos obstétricos;
– o concentrado de hemácias é aplicável nos quadros de anemia aguda, doença falciforme, talassemia, hemorragia aguda e para alguns pacientes submetidos a quimioterapia ou radioterapia;
– o concentrado de plaquetas é adotado nos pacientes com disfunção plaquetária congênita, pessoas que passaram por transplante de órgão, tratamentos oncológicos incluindo a leucemia e casos de dengue hemorrágica;
– o plasma sanguíneo auxilia pessoas com distúrbios de coagulação, hemorragias em pacientes com doença hepática crônica e também é utilizado no atendimento a vítimas de traumas.
– o crioprecipitado é de grande utilidade para os hemofílicos e aplicável a pacientes com variados distúrbios de coagulação.
Um pouco de história
As primeiras tentativas de transfusão de sangue entre humanos aconteceram por volta do ano 1660, mas episódios de reações adversas severas e mortes por incompatibilidade resultaram na proibição da prática em quase todo o mundo. No final da década de 1810, o sucesso de transfusões do tipo autóloga, quando o sangue coletado de uma pessoa é nela reintroduzido, serviram de incentivo ao pesquisador britânico James Blundell para uma experiência envolvendo humanos. É atribuída a Blundell a primeira transfusão homóloga humana bem sucedida, no ano de 1818. Na época, registrou-se avanços nos métodos de transfusão e armazenamento de sangue coletado, mas incidentes decorrentes da incompatibilidade entre doador e receptor tornavam a prática alvo de questionamentos.
A descoberta que possibilitou realizar transfusões com segurança é creditada a Karl Landsteiner, o pesquisador cuja data de nascimento é lembrada no Dia Mundial do Doador de Sangue. Landsteiner identificou tipos sanguíneos e percebeu que a associação de quantidades de sangue de mesmo tipo, ainda que originárias de pessoas diferentes, não produzia danos às celulas. Em 1930, Karl Landsteiner foi agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina, em virtude da classificação dos tipos sanguíneos e descoberta do fator Rh. A evolução das pesquisas com anticoagulantes e melhoria dos métodos de refrigeração e armazenamento propiciaram a criação dos primeiros bancos de sangue antes da Segunda Guerra Mundial. No Brasil, embora haja relatos de transfusões bem-sucedidas ainda na década de 1910, os primeiros bancos de sangue foram implantados apenas nos anos 1940, nas cidades de Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife.
Verdades sobre a doação de sangue
– O volume de sangue é completamente restabelecido em até 72 horas após a doação.
– Passadas 12 semanas da doação, todas as células componentes e substâncias naturalmente presentes no sangue são repostas. Para os homens, este período pode ser de apenas 8 semanas.
– Quem praticou atividade física pode doar sangue logo após os exercícios, desde que haja boa hidratação.
– Atividades físicas podem ser retomadas apenas 12 horas após a doação, mesmo as de maior intensidade. Hidratação antes e depois é fundamental.
– Ninguém vai contrair doença ou ficar debilitado por causa da doação.
– Doação não engorda, não emagrece, não afina nem engrossa o sangue.
– Trata-se de ato voluntário, portanto, quem doa uma vez não é obrigado a doar sempre.
– Vegetarianos e veganos podem doar sangue.
– No caso de medicamento de uso contínuo, essencial informar antes da coleta, mas nem todos são impeditivos da doação.
– Pessoas com tatuagens e/ou piercings podem doar, desde que ultrapassado um tempo mínimo informado pelo centro de hemoterapia, contado do último procedimento. O prazo não é superior a 1 ano.
– Qualquer adulto saudável com peso superior a 50 kg pode doar, inclusive quem já recebeu transfusão. 16 ou 17 anos de idade também pode, com o consentimento dos pais ou responsável legal.
– Protocolos de segurança impedem que o receptor seja contaminado com sangue que contenha algum patógeno não conhecido pelo doador. Portanto, seguro para quem doa e para quem recebe.
Doar para salvar vidas
A parcela da população brasileira atual que realiza doações com regularidade é pouco inferior a 2%. Não está em desacordo com os parâmetros propostos pela OMS, mas a demanda crescente por sangue e uma estagnação na quantidade total de bolsas coletadas anualmente tem colocado os centros de hemoterapia em constante estado de alerta. Em alguns municípios do país, os estoques atingem níveis considerados preocupantes ou até mesmo críticos. Equilibrar a relação entre as quantidades doadas e demandadas é emergencial para milhares de pessoas que precisam de transfusões. Contudo, a solução é simples, depende apenas da nossa iniciativa de procurar uma unidade de coleta de sangue. A Hemorrede do Brasil dispõe de mais de 2 mil dessas unidades espalhadas pelo território nacional, em todos os estados e no DF.
Para encerrar este texto, a RMS propõe a seguinte reflexão: será que existe algo mais compensador do que doar sangue? Alguns minutos apenas, nenhum custo, quase nenhum esforço, totalmente seguro, mas com a possibilidade de salvar uma vida; possivelmente, até mais de uma.
