RMS fala sobre o Dia Mundial do Sono

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O Dia Mundial do Sono é celebrado na sexta-feira imediatamente anterior ao equinócio de outono (primavera no hemisfério norte), portanto, 18 de março deste ano de 2022. A data é comemorada desde 2008 e foi proposta pela World Sleep Society, com o intuito de promover campanhas de divulgação dos benefícios do sono saudável e sua relevância na prevenção de doenças potencialmente fatais ou incapacitantes. De acordo com a OMS, mais de 40% da população mundial apresenta algum distúrbio do sono. O Instituto do Sono realizou uma pesquisa em 24 estados do Brasil e relatou que 67% dos brasileiros alegam dormir mal e 60% afirmam acordar muitas vezes durante a noite.

A sociedade contemporânea foi moldada para produzir incessantemente, ocupar o maior período de tempo possível na execução de tarefas ou estudos. Os momentos de descompressão são normalmente dedicados a atividades por vezes tão intensas ou que demandam tamanha concentração que pouco diferem do ritmo profissional. Criou-se a ideia equivocada e perigosa de que dormir é sinônimo de vida improdutiva e que se acostumar à privação do sono pode contribuir para o alcance rápido dos objetivos. A vigília tornou-se um meio para o sucesso. Contrariando este senso, pesquisas comprovam que o sono de qualidade e com a duração adequada torna o indivíduo mais produtivo, produz benefícios abrangentes à saúde, auxilia na prevenção de dezenas de enfermidades, contribui para o bem-estar e promove até melhorias de ordem estética. Definitivamente, não se trata de tempo desperdiçado.

Sono e saúde cardiovascular

Durante o sono, a redução natural da frequência cardíaca promove repouso do sistema cardiovascular e auxilia no controle da pressão arterial. Perturbações nesse processo podem conduzir ao desenvolvimento de um quadro de estresse noturno, fator de risco para doenças coronarianas. O sono em condições e tempo adequados contribuiu para o equilíbrio na liberação do hormônio do crescimento, cortisol, leptina e grelina, favorecendo a queima de gorduras, a regulação do apetite e o controle da glicemia, fundamentais à boa saúde cardiovascular. Alguns distúrbios do sono, como a Apneia Obstrutiva, por exemplo, contribuem para o desenvolvimento de doenças coronarianas. Relatório de um estudo realizado pela Academia Russa de Ciências Médicas indicou que o número de voluntários acometidos de algum tipo de acidente cardiovascular e que sofriam com quadros severos de privação do sono era mais que o dobro dos pacientes com histórico de sono regular.

Sono e diabetes

A privação de sono pode ser fator de agravamento do diabetes. Um estudo de longo prazo realizado por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia sugeriu que as chances de desenvolver diabetes são 50% maiores nas pessoas com distúrbios do sono. O repouso insuficiente interfere nos níveis do hormônio cortisol, condição que aumenta a resistência à insulina, favorecendo o acúmulo da glicose e contribuindo para o desenvolvimento de problemas no pâncreas. De forma análoga ao cortisol, a privação de sono pode desregular os hormônios leptina e grelina, responsáveis respectivamente pela sensação de saciedade e pelo aumento do apetite. Como resultado, descontrole alimentar que agrava quadros de obesidade, condição que também interfere na resistência à insulina e consequente aumento da glicemia.

Sono e sistema imunológico 

O sono de boa qualidade favorece a atividade dos linfócitos T, fundamentais na eliminação de células afetadas por agentes patogênicos, como vírus, por exemplo. Além dos linfócitos T, privação de sono compromete também a produção de citocinas, substâncias reguladoras da atividade de células do sistema imunológico. Distúrbios do sono podem prejudicar a produção de anticorpos decorrente da vacinação, assim como elevar o risco de contrair infecções respiratórias.

Sono e saúde do cérebro 

Durante o sono, uma substância denominada líquido cefalorraquidiano ou LCR promove uma “desintoxicação” do tecido cerebral. O LCR é uma espécie de solvente que elimina proteínas tóxicas resultantes da atividade do cérebro. Estudos identificaram o acúmulo irregular dessas toxinas em pessoas acometidas de doenças neurodegenerativas. Especificamente uma proteína, a beta-amiloide, derivada da atividade do sistema neurológico, é percebida em pacientes com Doença de Alzheimer. Para a eficaz eliminação das toxinas presentes no cérebro, necessário o cumprimento dos estágios mais profundos do sono, durante o tempo devido, haja vista a diminuição da atividade cerebral e consequentemente do fluxo sanguíneo viabilizar a ação do LCR. Relatório de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia revelou alta concentração de toxinas associadas a doenças neurodegenerativas em pacientes idosos com graves distúrbios do sono.

Sono e memória 

Durante o sono, informações e estímulos percebidos ao longo do dia e temporariamente armazenados no hipocampo são transferidos para demais áreas do cérebro que os convertem em memórias de longa duração. A conservação permanente ou por longos períodos desses conteúdos torna possível a constante atualização do conhecimento, sua utilização em operações mentais e até mesmo como recursos de autodefesa. O esvaziamento do hipocampo executado no período de sono permite o acúmulo de novas informações durante a vigília e consequente aquisição de mais conhecimentos. Os fluxos de memória e aprendizado são ferramentas para a interação social, para o desenvolvimento de diferentes atividades intelectuais e para a autopreservação. Dormir bem é fundamental para memória e raciocínio e a privação de sono pode agravar o déficit cognitivo. Descanso definitivamente não é desperdício de tempo e ninguém fica mais produtivo dormindo pouco.

Sono e hormônios 

Durante o sono, especialmente nos estágios mais profundos, são secretadas maiores quantidades de testosterona e hormônio do crescimento. Em níveis adequados, essas substâncias promovem tonificação de músculos e tecidos, manutenção da densidade óssea, eliminação de gorduras e aumento do vigor físico. Além da testosterona e do hormônio do crescimento, a privação de sono interfere na liberação do cortisol, hormônio que em níveis inadequados pode afetar o sistema imunológico, potencializar efeitos nocivos do estresse e desregular glicemia e pressão arterial. O sono também favorece a atuação da leptina, substância que auxilia a regular o apetite. A privação de sono pode alterar a ação da leptina e acarretar descontrole alimentar.

Sono e aparência 

A privação de sono gera prejuízos estéticos. A vasocontrição decorrente do desequilíbrio dos níveis de cortisol torna a pele do rosto pálida e provoca o escurecimento das zonas mais vascularizadas, resultando nas conhecidas “olheiras”. A condição também pode provocar inchaços e favorecer o surgimento de vincos. Outra substância que tem os níveis afetados pela privação de sono é o colágeno, responsável pela elasticidade da pele. Também a massa muscular obtém benefícios das noites bem dormidas. Níveis adequados de testosterona, hormônio do crescimento e cortisol aumentam o vigor físico e influenciam a síntese de proteínas.

Hábitos saudáveis e auxílio profissional

Corrigir alguns hábitos pode trazer melhorias à qualidade do sono e consequentemente à saúde: antes de dormir, evitar álcool, fumo, bebidas estimulantes, ingestão excessiva de alimentos ou líquidos e uso de computadores e smartphones; não executar tarefas profissionais, escolares ou que demandem grande concentração nos momentos que antecedem o sono; o local de repouso precisa ser escuro e silencioso, ter temperatura agradável e estar bem limpo; manter vida ativa e se possível praticar exercícios físicos, evitando atividades de maior intensidade nas últimas horas antes do início do período de descanso. Caso o ajuste dos hábitos não promova melhorias à qualidade do sono ou na possibilidade de algum distúrbio, procurar auxílio médico para o tratamento apropriado. Medicar-se sem orientação profissional não é indicado e pode agravar o problema. O médico de acompanhamento regular pode direcionar a busca por especialista. Deve-se procurar auxílio especializado, antes que a privação de sono cause prejuízos à saúde.

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