Em 30 de janeiro será celebrado o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase. Conhecida informalmente como lepra ou mal de Hansen, foi uma das mais estigmatizantes doenças da história, em virtude das lesões que produzia na pele e extremidades do corpo, comumente associadas no passado à expiação por graves pecados ou decorrentes de suposto comportamento promíscuo. A ausência de métodos de tratamento eficazes até os anos 1940 impossibilitava o alívio dos efeitos visíveis da enfermidade, condição que resultava em isolamento social do paciente e muitas vezes em recolhimento compulsório. Há algumas décadas, os medicamentos para tratar a hanseníase e informações críveis a respeito da doença tornaram-se mundialmente difundidos, atenuando os impactos sociais sobre o portador. A Lei 12.135 de dezembro de 2009 prevê que a celebração do Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase aconteça anualmente no último domingo do mês de janeiro. Há também um Dia Mundial de Combate à Hanseníase. Ambas as celebrações têm como um dos objetivos principais a adequada difusão de informações confiáveis sobre a doença, seus sintomas, prevenção e meios de tratamento. A hanseníase é uma enfermidade de origem bacteriana e transmitida por via respiratória.
O que é Hanseníase
A Hanseníase, no passado conhecida como lepra, é resultado da ação do bacilo Mycobacterium leprae. A transmissão ocorre por via respiratória: contato com gotículas de secreção nasal ou saliva expelidas principalmente através de tosse ou espirro de pessoa infectada. A bactéria afeta os nervos periféricos, acarretando: perda de sensibilidade, danos na pele, perda de pelos, manchas e caroços. Diagnóstico tardio ou interrupção indevida do tratamento conduzem a quadros mais severos que resultam em lesões neurais incapacitantes e deformidades permanentes. A hanseníase é conhecida desde aproximadamente o ano 500 antes de Cristo. Durante séculos, portadores da doença foram confinados em leprosários, recolhidos compulsoriamente em centros de tratamento, excluídos do convívio social. Medidas de segregação passaram a ser abolidas apenas na década de 1940, com o desenvolvimento de recursos eficazes de tratamento, quase 2500 anos após os primeiros registros conhecidos da enfermidade. No Brasil, praticou-se a internação obrigatória como forma de contenção até o final dos anos 1950.
O diagnóstico da hanseníase através de exame dermatoneurológico é simples e preciso. A doença é curável, mas a identificação precoce é essencial para o sucesso do tratamento e mitigação dos efeitos sobre os nervos periféricos. Estima-se que apenas 5% das pessoas que têm contato com a bactéria desenvolvem de fato a doença, índice consideravelmente baixo. A transmissão acontece através das vias respiratórias, portanto, não existe contágio pelo simples toque, como já se pensou no passado, nem mesmo pelas lesões e manchas na pele das pessoas infectadas. Logo que iniciado o tratamento, o indivíduo infectado deixa de transmitir a doença. Há dois tipos principais de hanseníase: paucibacilar e multibacilar, sendo este grupo o que costuma desenvolver quadros mais severos. O tratamento consiste na aplicação de diferentes antibióticos, alguns administrados exclusivamente em unidade de saúde e os demais em doses diárias no ambiente doméstico. Não há necessidade de internação para tratar a hanseníase. Os procedimentos são ambulatoriais ou geridos pelo próprio paciente ou familiares. Contudo, deve haver disciplina na utilização dos medicamentos e cumprimento das ordens médicas. O tratamento conduzido corretamente tem duração não superior a um ano. Quanto mais cedo identificada a hanseníase, melhor a resposta do corpo à terapia e menores as sequelas.
Brasil em situação preocupante
O Brasil está na segunda colocação mundial em quantidade total de novos casos de hanseníase, perdendo apenas para a Índia. Apresenta o segundo pior cenário no planeta em termos de contágio, mas isso quando se trata de números totais. Proporcionalmente à população, o Brasil está na pior condição mundial: enquanto a Índia apresenta uma taxa de 10 novos casos para cada 100 mil habitantes, registramos por volta de 13 para cada grupo de 100 mil. De aproximadamente 210 mil novos diagnósticos no ano de 2019, quase 28 mil apenas no Brasil, mais de 13% de todos os casos do planeta. Outro dado alarmante sobre a hanseníase no país: no mesmo ano de 2019, 90% do total de novos casos das Américas foram registrados no Brasil; das 30 mil detecções, mais de 27 mil brasileiros. No decênio 2010-2019, foram 301 mil diagnósticos no país, média superior a 30 mil por ano. Destes, mais de 20 mil diagnosticados apenas no estágio mais avançado da doença, com lesões severas que resultaram em perda de dedos, perda do nariz, deformidades permanentes nos pés, mãos e rosto. Destes 301 mil brasileiros doentes nos anos 2010 a 2019, quase 21 mil tinham menos de 15 anos de idade.
Importante sobre a hanseníase e seus sintomas
Quem esteve em contato com pessoa recém diagnosticada deve procurar auxílio médico, especialmente se convive com o infectado. Vale lembrar que tecidos do sistema nervoso afetados pela doença não se regeneram, por isso, algumas lesões são irreversíveis; quanto mais tardio o diagnóstico, piores as consequências. Também cabe reforçar que a pessoa infectada deixa de transmitir a hanseníase logo ao início do tratamento. Tomadas as primeiras doses dos antibióticos, não há restrições de contato. Quanto aos sinais da doença, quem apresentar qualquer dos sintomas a seguir deve procurar os serviços de saúde imediatamente:
- Manchas na pele com perda ou redução de sensibilidade (a pessoa sofre queimadura, impacto, corte ou machuca a região do corpo afetada e não sente dor);
- Fisgadas, câimbras, formigamento ou dormência nos braços e pernas, sem causa aparente;
- Diminuição inexplicável da força muscular;
- Dificuldade para manusear objetos ou para controlar movimentos dos pés;
- Feridas difíceis de curar nos pés, mãos e extremidades do corpo;
- Áreas da pele com ressecamento excessivo, caroços, feridas, perda de pelos ou redução do suor;
- Irritação forte nos olhos sem razão aparente.
